segunda-feira, 7 de junho de 2010

Sobre apitos e apitos

Wellington Miranda

Já faz muito tempo...

Quando criança, costumava sair disparado para o “fundo” do quintal da casa de meus pais, quando ouvia o apitar do trem.Época gostosa onde me dava ao prazer de apenas escutá-lo.Penso que minha vocação para psicanalista iniciou-se aí. Neste saber escutar... Por que vocação? Porque vocação é algo que nasce com a gente, não se aprende, brota. A palavra vocação vem do verbo vocare, que quer dizer “chamar”. “...é uma voz interior que chama e indica uma direção a ser seguida...”. Se escutá-la, pode ser que eu venha a ter momentos de felicidade. Se não escutar, poderei ser rico, poderoso e até famoso, mas não serei feliz.


Resolvi escutar minha vocação, essa voz que se iniciou há muito tempo, e hoje, sou feliz...



Escutar o trem não era para qualquer um. Nunca me permiti acostumar com seu barulho estrondoso, pois aprendi, que ao se acostumar com as coisas, posso deixar de ver a beleza que existe nelas. Assim acontece com os casamentos, namoros, relacionamentos em geral e até com o próprio sofrimento. Pessoas acostumam sofrer e desistem de sonhar, acostumam com o jeito de seus parceiros e não criam mais nada. Diz um ditado:”Quem está contente do jeito que está não cria nada”. Criei um outro...Quem se acostuma e acomoda com as coisas do jeito que estão, não cria nada.



Muitos que moram próximo à estação ferroviária, acostumaram com seu apito e barulho, a ponto de não o escutarem mais. E é por não o escutarem, que o governo resolveu abolir as estradas de ferro e triplicarem os pedágios. Acharam que com a retirada dos trens, as pessoas não sofreriam. Erraram! Foram egoístas! Não perguntaram se a presença dos trens era importante! Sou feliz por ter escutado a minha vocação, mas me entristeço ao escutar hoje o apito dos trens. Não possuem a mesma força, não carregam mais a alegria de se exibirem quando estão chegando à estação. As crianças não o admiram mais e os maquinistas estampam em seus rostos, a tristeza de não serem mais reconhecidos e admirados por serem os condutores das locomotivas. Viajei muito com “eles”... Esses dias, tive que levar minha filha até à cidade de Anhumas para que ela pudesse conhecer um pouco, do que conheci muito. Gostou...



Que pena não morar mais perto da FEPASA; que pena as estações estarem destruídas – as climáticas também; que pena o apito do trem não ter a mesma beleza e a mesma força; que pena Rubem Alves não passar mais no fundo de meu quintal para dar aulas na cidade de Rio Claro; que pena não conseguir mais sentir o tremer do chão e os sons agudos da linha de aço, avisando que algo grande estava se aproximando; que pena não ver mais as pessoas acenando para nós, enquanto seguiam viajem e continuávamos a brincar...



E é por isso que não esqueço daquela época...porque a memória carrega coisas que fazem sentido e que podem ser usadas. Não esqueço porque foi apreendido. Vou levar para o céu quando morrer e compartilhar com aqueles que não souberam viver sua infância. Aprendi a escutar... e acabei escutando que o fim da vida dos trens estava próximo. Aí, resolvi seguir minha vocação... escutar pessoas, pois a ausência cada vez maior das locomotivas, marcava ,que um dia, não mais as escutaria.


Preciso parar por aqui, pois neste instante ouço um apito...se não escutá-lo agora, não sei quando o escutarei novamente...

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