Wellington Miranda
Aconteceu em Nova Odessa. Como todos já sabem, não dispenso um café com leite e um pão com manteiga.
Seja na parte da tarde ou na manhã (exceto nos dias de jejum), tal ritual faz parte de minha vida há anos.
Nesses momentos efêmeros, idéias me saltam, sentimentos me sacodem e a sensibilidade humana se torna, ainda, mais real.
No trajeto - consultório-padaria - me deparo com uma cena rara. A passos rápidos e concentração assídua, um pedreiro saindo de seu trabalho, retira um livro de sua mochila, coloca-a nas costas, abre o livro com suas duas mãos e se deleita numa leitura fantástica.
Nem o movimento louco dos carros, nem o atravessar da rua, faz com que aquele homem retire os olhos daquele livro.
Minha vontade era perguntar o nome do livro, mas com certeza eu estragaria sua leitura e a cena a qual eu nunca mais me esquecerei.
Este foi o fato. E agora, o que tal fato despertou em mim!
Pedreiro, nunca combinou com livro. Pelo menos em nossa cultura!
Mas na verdade, entre pedreiros e livros, existem muitas semelhanças e caminha tão junto, que sempre passaram despercebidos por nossos olhos desatentos.
De uma coisa sei: novamente vi beleza onde muitos não vêem. Fazendo minha auto-análise, pude compreender o porquê de meus olhos terem sido seduzidos por uma cena, aparentemente sem valor. Entre uma mordida de pão e um gole de leite, pude pontuar quão maravilhosa semelhança existe entre os dois.
O Pedreiro, é aquele que contribui na construção civil.
O Livro, é aquele que contribui para a construção do ser humano.
O Pedreiro, é aquele responsável por fazer um bom alicerce, afim de que a construção não desabe.
O Livro, se responsabiliza por uma solidez do caráter e do conhecimento, afim de que não sejamos contaminados pelo vírus da ignorância.
O Pedreiro, pelo menos os bons pedreiros, possuem olho clínico e identificam os perigos de uma construção.
O livro, pelo menos os bons livros, nos despertam novos olhares sobre ângulos jamais visto.
O Pedreiro, compreende que não se deve ter pressa para acabar uma boa obra.
O livro, nos faz compreender que uma boa obra, deve ser lida e relida quantas vezes necessário e apreciada, independente do tempo.
O Pedreiro, trabalha em harmonia com a natureza. A busca pela perfeição é encontrada nela. Sem a ajuda do tempo, a obra não anda.
O Livro, nos abre a possibilidade de conhecer o tempo, as paisagens e lugares, sem mesmos termos saídos de casa. Com o tempo, as páginas se tornam amarelas, porém, mais significativas. Com a ajuda do tempo, nossas mãos conseguem segurar um livro, mas não conseguem mais segurar um tijolo.
Prossigo meu café, pois perco de vista o pedreiro. Não sei se o encontrarei novamente. Momentos assim podem ser únicos...
Na ausência do Pedreiro, abrirei um livro, repensarei meus conceitos e apreciarei um novo entardecer.
Ele não percebeu minha existência – também, pudera! Mas minha existência pode perceber que aquele trabalhador não era apenas um construtor de prédio, mas um construtor de histórias!
Na verdade, acredito que aquele homem tenha virado poeta, pois ao que me parece, fez de sua profissão uma arte! Ou talvez, da arte, sua profissão...
Ou quem sabe, ainda, tenha se tornado um cantor, que no meio de seu ofício de construtor, cantarolou A Construção, de Chico:
...e atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música...
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